Saturday, January 4, 2014

4 de Janeiro.

Depois da Chuva. 
              Parte 1
           
            Era uma manhã chuvosa, com um céu escuro e um vento cortante, mas era apenas outra manhã para Juliana, desde que ele se fora, todos os dias eram iguais, a mesma tristeza que pairava sobre ela como uma neblina que ela não podia escapar. Estava no ar, no chão que ela pisava, no céu sem cor... Em toda parte havia aquela silenciosa melancolia que consumia o coração do jovem, não importava se havia um sol brilhando no céu ou caia uma chuva torrencial, como não havia alguém para dividir suas sensações, Juliana nem se quer notava a mudança ao seu redor.
Ela caminhou pelo caminho deserto até encontrar o seu pequeno retiro de paz, sentou-se na grama molhada e encostou a testa na pedra fria, fechou os olhos e sentiu as gotas de chuva acariciando sua pele ao mesmo tempo em que encharcava sua roupa, não sentia frio, na verdade, não sentia nada.
  Seus dedos deslizaram pele pedra, sentindo as palavras que eram formadas pelas pequenas e delicadamente gravadas, embora tivesse os olhos fechados, aquelas faziam sentido, cada curva das letras, cada linha, queimava na ponta dos dedos de Juliana e fazia o ar em seus pulmões escapar por um segundo.
Malditas palavras que cismavam em lembra-la daquele sinistro dia em que sua vida fora levada para sempre. Era torturante estar ali, onde a lembrança estava viva e ao redor dela, mas era melhor sentir a dor a saudade que não sentir nada.
Ela abriu os olhos muito escuros e leu as palavras na lápida cinza e fria
Matheus Henrique Santiago
            O homem que se foi cedo demais
.

As palavras ecoaram em sua mente, por um longo momento ela teve que controlar as lágrimas  que formavam-se ao ler, lembrar,  o simples fato de olhar para aquela maldita pedra fria e sem vida que nada mais era que uma... Constate e dolorosa lembrança... As pessoas diziam que o tempo cura tudo. Mas haviam se passado quase dez meses e ainda ela sentia que seu coração estava sendo arrancado de seu peito sempre que se lembrava daquele cruel fato. Ela era uma viúva  sem nunca ter sido esposa. O namorado de longa data morrera depois de completarem dois anos naquela nova casa...
E o tempo não curou nada.
Um suspiro quase inaudível escapou seus lábios , ela fechou os  olhos mais uma vez e forçou a garganta, para que pudesse falar, começou com um silencioso sussurrar que cresceu até que ... Juliana sentiu-se ... Quase normal.
– Hoje foi um bom dia, o estúdio estava cheio. Depois que aquela modelo apareceu por lá começamos a fazer sucesso. – Ela sorriu para si e para seu falecido marido. – Lembra-se daquela jovem que contratei umas semanas atrás?  Deveria vê-la, é a melhor assistente que conseguimos em muito tempo, e parece que quer seguir nossos passos...desenha bem, tem a Mao firme, acho que ela seria uma excelente tatuadora.  Pintei o fundo da loja com aquele seu desenho...Dos dois esqueletos se beijando, as pessoas vão tirar fotos de lá ...è ficou bom...  Só tem um problema... Quando eu olho para o Ural, lembro ainda amais de você... AH meu amor, como você faz falta, me sinto completamente vazia sem você, a casa é grande de mais, o estúdio não é o mesmo sem você...
Sentindo que iria começar  a chorar ela engoliu a seco, e sorriu quando o vento acariciou-lhe o rosto, as vezes elas gostava de acreditar que sentar na frente da lápide de seu amado nos intervalos de almoço iriam ajuda-la a recuperar da dor que sentia pela perda de Matheus.  Ela sentava-se ali e conversa com ele, sobre seu dia, sobre o estúdio, falava sobre suas novas ideias, as vezes lia um livro para ele,  oyu ficava ali reclamando da vida, do tempo, do trabalho...A verdade é que Juliana gostava muito de reclamar.
Para muitos aquilo não fazia o menor sentido, mas para uma jovem que em seus poucos 22 anos havia perdido tanta coisa, que tinha sofrido tanto... Ela negava-se a perder o carinho e o conforto que sentia quando estava junto de Matheus, aquele tipo de sentimento não podia simplesmente desaparecer apenas por que ele havia morrido... A presença que ela sentia quando conversava com ele... era a única coisa que a  mantinha sã.
O celular em seu bolso vibrou, seu tempo acabara, a realidade a chamava de volta para o mundo de chuva e solidão, ela olhou para o número na tela de seu aparelho velho e gasto.
–  Oi Camila... Hmmm A Joana já chegou?  – Ela ouviu sua assistente falar  de clientes atrasados e turistas abusados antes de responder a  pergunta – Certo, certo, chego ai em dez minutos, prepara ela pra mim? Valeu querida.
Juliana sorriu e olhou carinhosamente a lápide.
– Hora de trabalhar... Volto amanhã, no mesmo horário meu amor.
Ela beijou a ponto dos dedos e passou pela curva da pedra antes de virar as costas e começar a caminhar para a saída do cemitério. 
A doce e jovem Juliana que ainda muito nova perdera os pais, fora atirada de orfanato a orfanato e acabou conhecendo um rapaz, tão perdido quanto  ela. E foi com aquele rapaz que ele conheceu o que as pessoas chamam de felicidade... Agora ela tinha uma linda casa projetada para receber luz nos momentos exatos, e tinha um enorme jardim de rosas, era dona do mais famoso estúdio de tatuagem da cidade, todos as conheciam, e todos eles sabiam que no fundo, por trás dos sorrisos e das piadas, ela havia se tornado a pessoa mais triste de todo o lugar.
O portão do cemitério fechou-e e Juliana caminhou em direção ao Estúdio Zero, deixando para trás, outro pedacinho de seu coração. Na lápide de Matheus, sentado na curva que ela havia acariciando havia uma curiosa figura de cabelos escuros, olhos mais escuros ainda e... Completamente translucido.
 O fantasma, espírito, aparição, ou seja, lá como se chama aqueles que se vão mas por algum motivo...ficam, de Matheus escutou cada uma das belas palavras de Juliana como se fossem a mais belas das sinfonias, sorriu quando enquanto a jovem falavas mas quando se fora, os olhos dele estavam tristes...
– Não é justo  – reclamou ele para a mulher de cabelos loiros e grandes asas ao lado dele em um voz etérea que para os vivos nada mais era que o soprar do vento.
– Sei disso... Mas Juliana é uma forte mulher, era irá aprender com essa dor e ... Conseguirá sobreviver.  Todos os humanos conseguem meu amigo – A jovem de cabelos loiros moveu-se  para perto de Matheus e com elas algumas folhas secas na chuva mudaram de posição.
Matheus observou a asas de sua guia, ela era a responsável por leva-lo ao outro lado da luz... Quando ele estivesse pronto, ou seja quando ele aprendesse que não lhe pertenciam mais os desejos dos vivos ou os sentimentos deles... Mas para Matheus, ele apenas poderia ir embora, deixa Juliana de vez... Bem, nunca, isso não era possível para ele. A guia, no entanto sabia que esse era um longo e vagaroso processo, mas ele tinha tempo e paciência, sempre tivera.
– Ela vai ficar bem, dê-lhe tempo meu querido amigo.  Você consegui compreender a perda, ela irá também...
Os delicados dedos da guia tocaram o rosto dele e Matheus suspirou, havia tanta coisa que ele perdera naquele acidente, não apenas a vida que tinha, mas todas as chances que ele e Juliana poderiam ter. Ele perdeu os filhos que nunca tivera, as tardes tomando sorvete, as corridas matinais, os jogos de vídeo-game nos domingos... Ele perdeu Natais e páscoas... Perdera tudo aquilo com que sonhara desde que os pais o abandonaram quando era apenas uma criança.
–  Não é justo!  Estávamos apenas começando, abrimos o estúdio poucos dias antes... Tínhamos a chance de finalmente sermos felizes...  – Embora ele estivesse lembrando do acidente que o matara, não havia mais raiva, ou ódio em seu coração. Apenas saudade...
Por muito tempo, depois que ele havia de fato morrido, ele culpava-se, pensavam que se houvesse esperado um pouco mais para atravessar a rua, E se... Houvesse esperado um dia a mais para comprar aquele anel de diamante rosa, lapidado especialmente em forma de rosa, E se... Ele esperasse ais um ao para pedi-la em casamento E se... E se... A palavra nunca sairá de sua mente, vivo ou morto, as possibilidades que foram perdidas, as noites que nunca teria os dias que lhe foram roubados por um motorista desgovernado... Isso sim,  eram o que lhe doía.
Ela estava sozinha e infeliz e era culpa dele...
Quando se conheceram, Matheus e Juliana, ele tinha apenas oito anos, e ela estava se escondendo de um grupo de meninas que queriam cortar-lhe os cabelos , e ele prometera naquele dia que jamais a abandonaria, nunca iria deixa-la sozinha... E ao ver de Matheus, a morte não era exatamente  uma boa desculpa para que quebrasse uma promessa tão antiga.  Sua guia sabia disso, e precisa encontrar uma forma de fazer com que ele se libertasse daquela promessa, ou Matheus ficara eternamente preso em um plano que não lhe pertencia.
– E sabe o que é pior, sabe o que realmente me machuca? – ele perguntou levantando-se da lápida em que estava sentado e caminhando de um lado a outro movendo folhas e fazendo o vento sibilar violentamente – É saber que ela jamais desconfiará o que eu ia fazer! Ninguém sabia... Juliana vai passar o resto da vida dela sem saber que eu queria casar com ela!
Matheus caiu no chão, enterrou o rosto em suas mãos por um momento antes de olhar para cima. A guia sorria, um sorriso puro, quase infantil, seus olhos brilhavam de uma forma que fazia Matheus querer sorrir, mas havia lago diferente naquele brilho, algo que ele reconhecia,  era uma ideia... Uma travessa ideia que tenta escapar a mente de sua guia. 
– Tinha medo que você um dia dissesse isso... – Admitiu ela com os olhos brilhando esperançosamente – Mas achava que diria algo parecido...Por isso tomei providencias.
– O que quer dizer?
– Que falei com... Eles.  Levou um tempo mas, a medida foi aprovada. Não há outro jeito meu menino.
– Não... Entendo.
– Essa é a única forma de fazer com que você consiga libertar-se de seus assuntos não acabados aqui.  Então, estou lhe dando uma chance, de colocar as coisas em ordem.
– Como? – Não havia como negar a felicidade nos olhos dele.

– Você terá uma noite, para voltar e falar tudo aquilo que precisa. Mas é só uma noite.

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