Sunday, January 5, 2014

5 de Janeiro

Reflexos de um vazio
O pé flutuante sob o etéreo da noite estrelada, o sussurrar do vento em meus ouvidos, instigava a curiosidade de instintos adormecidos.  O tecido da roupa parecia pesar tanto naquela situação...  Mas a verdade é que nada pesava mais. Ou talvez... Eu já havia perdido a noção do que era real ou não.
Talvez.
Agarrava-me a  sensações que  me foram roubadas, os sentimentos que tive, quebrados e levados embora, para longe de mim, sugados pelo enorme ralo da humanidade, e eu aqui... Divagando quase como o poeta que não sou.
Escutava do vento suas doces palavras de desespero, convidado para um novo passeio, um segredo entre eu e aquela longa noite que me esperava... Só nós dois, me dizia a brisa noturna, você e eu... Para sempre, juntos. Sem eles...Nenhum deles, apenas eu e você.  Tentava não ouvir, mas não conseguia evitar... Afinal como se ignora o vento?
Olhei para cima, fui recebido pelas estrelas piscam sobre mim. Havia algo naquele brilho, certa malícia que eu desconhecia, sabiam dos meus segredos, sabiam o que eu quero esconder, sabem dele... Sabem de mais sobre ele.  Aquilo que foi escondido, escondido tão profundamente dentro de mim ... que se perdeu.
Antes, não muito antes, se eu me sentisse  exposto e humilhado pela luz de tantos olhos cintilantes sobre mim morreria de vergonha, sentiria medo, tentaria evitar aqueles olhos, ou fingir que ao olhavam para mim, mas agora era diferente. Eu estava cicatrizado, imune... Eu não sentia nada.
Nada. Nenhum medo, ou vergonha, não sentia vontade ou desejo, eu estava vivendo por pura inércia, e dentro de mim...  O vazio. E nada mais.
Abaixo de mim, vivendo suas vidas normais e simples, passa o mundo e os mundanos viventes, atrasados... Sempre atrasados. 
Sempre me perguntei onde perdem tanto tempo, por que viviam correndo? Por que nunca se preparam ou pararam para perceber que ...Que... Agora eu vejo aqui em cima, acima de todo eles,  onde o barulho é apenas o do vento e não buzinas e gritos, onde a única luz são as estrelas do céu e as estrelas dos asfalto, não os celulares e T.Vs que nunca se desligam..  Eu posso ver, ver com clareza  que eles gostam de estar assim, atrasados.  
Correndo.
Penso que deve ser a adrenalina. È deve ser a adrenalina mesmo, a necessidade de correr e sentir-se... Vivo.  Acho que isso viciou todos eles, mais que qualquer outra droga que procuram por ai. E ainda e natural, de graça.
Curioso que mesmo em situações mais pessoais como essa... Eu sempre acabo pensando-nos outros. Acho que por eu sempre estar no horário certo,por nunca ter sido colocado em situações estressantes  que eu nunca senti aquela adrenalina correr pelas minhas veias impulsionando vida pra dentro do meu corpo, bombeando pra minha alma uma razão... Acho que foi isso.
Deve ter sido isso...
Ou talvez as mentiras...
Mas possivelmente, fui eu... E só isso.
Eu era vazio...  Ou será que eu me tornei vazio?
Não fazia mais diferença. Não mais.
Oh, Corajoso covarde que não consegue defender a própria vida de si mesmo,
Abra tuas asas e mova-se para o infinito.

Eu tentei me lembrar de quem me disse isso... Era uma amiga da faculdade? Ou se quer eu li em algum livro qualquer?   As coisas já estavam bem confusas dentro da minha cabeça, era como se a brisa forte lá de cima do prédio, que ia contra meu rosto, estivesse empurrando minhas memórias para longe de mim junto com as folhas e os papeis. Em cima do parapeito eu estava, pouco a pouco esquecendo de mim .
O que eu fui o que eu quis ser e não consegui? 
Quem eu era afinal de contas?
Nem mesmo os sonhos foram poupados,  eu os podia ver flutuantes ao meu redor, acenando, despedindo-se .
 Lembro-me, pensei...  Os tempos me confundiram... Eu sou ou Eu fui? 
As coisas estavam confusas, eu ainda podia escutar o rítmico soar do relógio, esse nunca me falhou, não importava quão velho fosse. Eu podia ouvir o tempo ir embora, pra longe de mim... O tempo não parava... Nem para mim... Não parava.
Não parava... Não... Não parava ... Não... Não Parava.
Pensando no tempo, eu comecei a sentir  algo... O vazio dentro de mim, começou a crescer,  rasgou os limites do meu corpo, expandiu-se em volta de mim, era simples e silencioso, nem o relógio se escutava,  isso me intrigou, mas não consegui pensar muito, era difícil, minhas memórias haviam se perdido no vento  E quando eu deu por mim.
Eu já não era mais.




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