Saturday, January 11, 2014

9 De Janeiro

Depois da Chuva. 
              Parte 2

O vento soprava forte contra as janelas da enorme  e solitária casa de Juliana, ela estava caminhando pela cozinha com o telefone apoiado no ombro enquanto conversava com o” irmão”, André e preparava um jantar nada saudável para ...Um.
André ligava para ela todos os dias, a mesma hora, e enquanto ele fazia o jantar dele e da filha, Juliana fazia o dela. Era uma maneira dele manter-se  em contato e ter certeza que ela estava bem. Juliana e ele haviam se conhecido na mesma época em que ela conhecera Matheus, mas André, por ser anos mais velho ou por ter uma personalidade protetora, se tornou o irmão mais velho que ela nunca teve... E talvez a única pessoa com quem ela poderia ser completamente honesta.
Todos os sábados ele ia visitar Juliana com a pequena Luiza, sua filha adotiva, eles almoçavam juntos, viam um desenho animado comendo a sobremesa que André preparava, enquanto Luiza dormia, Juliana e André lavavam a louça. Geralmente era nessa hora em que Juliana chorava no ombro do querido amigo  e depois ia sentar na varando tomando sorvete de limão.
Sábado era o único dia que Juliana sentia-se viva, as vezes feliz, as vezes nem tanto mas era um dia especial, ela sentia que Matheus estaria feliz se a visse durante os sábados. Ela ouviu o amigo falar da nova receita de sobremesa que estava fazendo para sábado e se animou um pouco,  e desligou, sentando-se na cozinha para comer...Sozinha, no silencio.
No jardim da frente, Matheus e a Guia observavam a porta, ela tensa e calada, ele quase sem conter a felicidade que o invadia.  Ele sabia que o tempo não era o mesmo para ele e para Juliana. Quanto tempo faria que ele havia morrido? Em dias, semanas, horas... Isso não fazia muita diferença para ele, mas era …Crucial para ela.
– Você tem até o nascer do sol.  – Disse a Guia observando os últimos raios de sol sumirem sob os prédios. – Nem um minuto a mais.  Você entendeu isso, né?
Ela o olhava muito séria e sua voz era muito atenta, mas havia uma sorrisinho escondido no canto de seus lábios, que fizeram Matheus sentir-se  um pouco melhor., mas ele ainda estava nervoso e empolgada, feliz e apreensivo com a experiência.
– Uma noite, é tudo que tenho.
– Você sentirá quase humano, mas não o será. Vai sentir o toque, o beijo, o calor, mas lembre-se meu amigo, você esta morto – Disse ela segurando o rosto de Matheus entre suas mãos carinhosas.
– Entendo.
 – Bata na porta. Seja educado e...  Uma ultima coisa.
A guia abriu a mão e mostrou a ele o anel que ele havia comprador para Juliana no dia em que morreu.
– Não é o mesmo, mas achei que fosse apropriado que você tivesse um anel para pedi-la em casamento... Não era isso que lhe faltava?
Não haviam mais palavras, Matheus envolveu a mulher em seus braços e beijou-lhe as bochechas fazendo um enorme estalo. Ambos sorriram, havia uma felicidade entre eles que não podia ser explicada, era algo a ser sentido.
Matheus caminhou até a porta, agora que estava sozinho, ele podia sentir o universo pulsando em suas veias, o tempo correndo ao seu redor como o sangue que uma vez ele teve. Ele sentiu a madeira em sua mão, e ouviu o som que isso fez e sorriu, havia se esquecido como essas coisas eram. Sentir, ouvir… As coisas de fato mudam quando se esta morto.
Juliana estava senatda no sofa com o caderno em suas mãos, tentava escrever um poema que havia começado há alguns dias, mas não conseguia. Sua cabeça estava perdida em algum lugar entre a vida e a morte, onde isso não era tão diferente assim e aqueles que se perderam... Não estava perdidos de forma alguma.  Fora desperta de sua fantasia pelas batidas na porta, levantou-se por curiosidade, ninguém vinha a sua casa, especialmente àquela hora da noite.
Quando se sonha de mais com alguma coisa, um sonho impossível e de verdade, é difícil se quer pensar o que você faria caso aquele sonho saísse do mundo das ideias e entrasse na sua realidade.  Ninguém de fato sabe o que aconteceria se seu sonho mais impossível tornasse real,  mas nas raras ocasiões que isso pode acontecer, é normal que se sinta uma enorme confusão, seguida de uma curiosa cosquinha no estomago, um medo silencioso e uma felicidade avassaladora.

E foi exatamente isso que Juliana sentiu ao abrir a porta naquela noite fria, então ela desmaiou. 

No comments:

Post a Comment