Monday, March 31, 2014

29 e 30 de Março

Os Sete

Luxúria

As marcas no pescoço pálido do jovem aprendiz de cabelos negros como ébano eram  curiosamente despercebíeis a qualquer outro frade ou monja que morasse no convento da montanha Negra, popularmente conhecido  como o Convento Negro, mas uma pessoa reparou...
Os homens e mulheres castos que dedicavam a vida a oração,e aos estudas das escrituras sagradas, tanto da Luz quanto da Escuridão, receberam o novato em uma noite de chuva, as portas foram marteladas por punhos frágeis quando um homem de aspecto febril tremia a porta, apoiado em seus joelhos  molhado até o mais interno dos ossos, ele suplicou abrigo, um lugar onde pudesse abrigar-se e tentar lembrar de quem era... O jovem de cabelos e olhos escuros dizia que não se lembrava de nada, nem se quer seu nome.
Fosse por piedade, fosse por religião, a Madre Superiora aceitou o rapaz, dando-lhe a posição de carpinteiro assistente.
Ficou conhecido como Lucien, pelas Monjas e pelos Frades, pois viera junto com a luz da manhã. Era um rapaz calado, prestativo, gostava de passar tempo ajudando com tudo que podia, especialmente com os serviços manuais, mas no silencio de suas tarefas ansiava por conhecimento, estava sempre conversando com os Frades ou as Monjas, e absorvendo tudo que podia de suas conversas, seja o estilo de vida deles, sejam as tradições do vilarejo sobre o qual estava a montanha Negra.
Lucien cumpria seus horários e era um bom rapaz. Assim que todos no convento o chamavam, um bom rapaz... Mas aos poucos coisas começaram a ser ouvidas, sussurros sobre comportamentos curiosos surgiram no pequeno vilarejo... Coisa que so se ouvia antes em lendas ou em orações.
A lua estava alta no céu, o frio consumia a montanha Negra, e o convento estava tão gelado quanto possível, em uma hora tão tardia era de se esperar que todos os frades e todas as monjas estivessem dormindo, mas passos poderiam ser ouvidos na biblioteca privada do Convento Negro.
– Lucien? – Chamou o Padre superior Guilherme, abaixo da Madre superiora, ele era o frade mais antigo no convento, com mais de cinquenta anos de trabalho para os Conventos.
Saindo de trás de uma prateleira com uma pequena vela nas mãos, e um enorme livro no colo, os olhos sombrios de Lucien brilharam a luz laranja.  
– Boa Noite Frade Guilherme – Lucien fechou o livro.
– Você deveria estar dormindo meu jovem. – Disse o homem feito de rugas e pequenos sorrisos.
– Eu... Sei. é que eu perdi o sono, estava...
– Curioso de mais para... Para de ler quando o sino da noite tocou?
Era uma pergunta, mas Guilherme sabia exatamente que esse era um dos motivos que levara Lucien a buscar a leitura da biblioteca privada, utilizada apenas pelos frades e monjas de mais alta hierarquia e apenas com autorização expressa da Madre Superiora.  Guilherme via muito mais do que os jovens que viviam naquele mesmo Convento.
– Largue esse livro meu jovem, venha dar uma volta comigo, pegue um casaco, vai sentir um frio desumano quando andarmos pelos jardins de gelo.
– Sim senhor. – Lucien disse fechando o casaco cor de pele e caminhando ao lado do frade idoso. – Padre, perdoa-me por quebrar a regra do  noite.
– Ora meu filho, não é a primeira nem será a ultima vez que você vai ficar lendo as escrituras sagradas pela noite.  – Guilherme disse com um sorriso paterno. – Melhor que eu o guie em algumas coisas pouco explicadas nos livros sagrados.
– Como sabia que eu estava...
– Buscando respostas para saber mais sobre você mesmo?
Lucien abriu os olhos em espantando e automaticamente cobriu as duas pequenas marcas no pescoço.
– C-Como o senhor soube.
– Meu jovem... Estou estudando isso a cinquenta anos...  Entendo tão bem dos filhos de Bastet quanto sobre os filhos de Freik.
– Bastet? Freik? Quem são... Esses?
– Lucien meu cara, você deve saber o nome do seu criado, o primeiro de todos os luxuriosos, Bastet, o primeiro Vampiro.
Lucien silenciou-se, ele podia sentir ainda o calor emanado do corpo do outro que ele havia consumido há poucos dias, embriagou-se do sangue alheio e satisfez-se na carne do outro. A verdade é que um vampiro não precisa de sangue humano, mas ainda sim, o ama, é o vicio, a necessidade e toda a compulsão que os deixa tão vulnerável a vermelhidão e o cheiro forte e doce do sangue humano.
– O que sabe sobre vampiros Padre Guilherme.
– Bastante Lucien.
– Conta-me, pela Escuridão que me protege e a Luz que me fortalece, explica-me no que me tornei.
– Bem... Tudo que sabemos sobre os filhos de Bastet, os filhos de Freik, as filhas de Chiarinna e todos os outros quatro vieram das escrituras sagradas. Existem três os Diários de Freik, o primeiro Dragão, essas escrituras estão guardadas entre os Conventos, protegidos pelos Frades e as Monjas. A palavra de Chiarinna a sereia, guardadas pelas sacerdotisas e os sacerdotes do Oasis  e por fim as parábolas de Caron, o homem lobo, que são guardados nas igrejas pelos Ocultos.  Essas três forças são os pilares de nossa religião e cultura.  Todos nos respeitamos, somos todos iguais, mas somos guiados por diferentes palavras.
– As Palavras de Chiarinna, As Parábolas de Caron e os Diarios de Freik, certo?
– Certo,  todos dizem basicamente a mesma coisa, a história da criação do mundo, o encontro dos sete com A Luz e a Escuridão e como os diferentes se desenvolveram.  Religiosamente o que nos diferencia é a localização. Conventos são sempre em montanhas, os Oasis perto de oceanos e as Igrejas dentro de cidades, no entanto elas tem passagens subterrâneas, antigamente as igrejas guardavam os homens e mulheres bestas quando a lua estava grande no céu.
– E ...E hoje em dia Padre Guilherme?
– Os Ocultos, sejam homens ou mulheres, ainda protegem as bestas da Raiva quando necessário.
Lucien caminhava lentamente, seu cérebro movia-se com a velocidade de uma águia em pleno voo de caça, ele queria aprender o máximo que podia sobre sua raça e por que ao sabia nada sobre si mesmo.
– Por que Bastet não tem seu próprio pilar? Por que não existe a catedral dos filhos de Bastet ?
– Por que nunca foi escrito nada por ele... Bastet envergonha-se da evolução de sua espécie. As escrituras contam que quando os encantamentos dos irmãos se formavam Bastet não conseguia largar-se de seu vicio pela bebida, e foi ele quem trouxe a mais antiga e profunda magia, o espírito humano. 
– Como? Como isso é possível?
– Por que quando se entrega a um vicio, se revala a verdade sobre a natureza humana meu jovem, somos fracos na nossa fortaleza, o sangue humano é uma dos instrumentos mágicos mais poderoso de qualquer outro , se dado de bom grado, ele da o poder da Luz e da Escuridão a qualquer magia, pois foram os Deuses que nos criaram, se tomado a força, amaldiçoa qualquer coisa.  Bastet deu seu sangue para que ele e seus irmãos e irmãs pudessem viver para sempre. E por Isso foi abençoado com a castidade de entregar-se única e exclusivamente a um amor, e o vicio de nunca estar satisfeito.  Ele bebe o sangue por que o álcool não lhe satisfaça mais, ele dorme com ser huamno em busca de um calor  perdido... Bastet nunca escreveu nada, e hoje se esconde por entre os bordeis por que ele se entregou a si mesmo... Ele tem vergonha de si.
– Isso quer dizer que... Eu estou condenado a vergonha e a luxúria?
– Sim... E não. OS Vampiros mais jovens decidem entregar-se um ao outro. Encontram um verdadeiro amor e dele ou dela nunca se separam, podem buscar a satisfação no  outro e em sua maioria vivem uma vida bastante simples.  Sei que para você deve ser difícil entender mas... A única razão de que tenhas perdido a memória de quem eras quando humano é por que Bastet sabe que as lembranças de sua humanidade irão atormenta-lo, quando mordido e lhe é deixado apenas a ultima gota de sangue... Você esquece quem você era e nasce para a imortalidade.
– Isso não é exatamente bom...  – Lucien suspirou e olhou para baixo chutando um pequeno monte de terra.
– Não é, mas não se deixe abater. Pode seguir uma vida longa e completa se seguir uma única regra.
– Que regra?
– Sangue deve ser tomado de bom grado, a cama que você deitar deve lhe ser oferecida. Caso contrario, você vai amaldiçoar sua alma imortal e se perderá como o teu criador.
 Com a ajuda de Padre Guilherme, Lucien aprendeu tudo o que podia das escrituras sagradas dos Conventos, e vinte anos depois de sua chegada, quando as Sombras finalmente levaram Padre Guilherme, Lucien começou sua longa peregrinação por todos os outros conventos, sempre levava consigo a carta de recomendação de Padre Guilherme e lá estudava tudo que podia  sobre as escrituras.
A sede de conhecimento conseguia fazer com que a necessidade por sangue e corpo, por calor e libido fosse esquecida, mas logo percebeu que toda a leitura era uma busca, o homem que pareceria jovem mas carregava nas costas muito mais que cem anos, havia lido todas as bibliotecas de todos os Contos e não coseguiu encontrar o que buscava.
Foi apenas quando começou a procurar dentro das Igrejas que ele encontrou algo...
Uma mulher de corpo miúdo, a pele tão escura como os cabelos cor de ébano, contrastavam com os olhos amarelos e vivos. Era uma Oculto, cuidava da Biblioteca da Igreja do Sul da Itália, se chamava Alessandra.
Ela era um filha de Caron.
Ela sabia sobre a primeira lenda.

Lucien se apaixonou por ela no primeiro sorriso.

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