Wednesday, April 2, 2014

1° de Abril

Os Sete

Ira

O problema de Alessandra nunca foi a noite, o problema dela sempre surgia com o nascer do sol.  
Era um dia quente, uma manhã bonita, com o sol brilhando forte e a brisa ainda fria da noite anterior  que corria pelas árvores  quando ela acordou, uma dor insuportável no pescoço fez com que apertasse os olhos fechados com força.  Havia um grande corte ali, queimava, pulsava, ardia... A ponta dos dedos dela correu toda a extensão do corte, e mesmo sem abrir os olhos ela sabia que aquele corte era profundo... Havia sangue coagulado preso no cabelo dela, e sangue fresco em suas mãos...
Merda.
Antes mesmo de abrir os olhos ela sabia onde ela estava só havia um lugar que ela acordaria, machucada com sangue nas mãos em uma manhã como aquela... Uma manhã depois da lua cheia.
 A floresta que cercava o vilarejo era um lugar cheio de vida noturna, especialmente os jovens amantes que buscavam fugir do olhar cruel de seus pais e dos velhos da vila, ainda que as coisas tenham mudado muito nos últimos séculos, os amantes tinham que comportar-se de uma forma muito específica, era o final do século dezessete, os casamentos por amor estavam começando a entrara "na moda", Dois jovens estavam  perto do lago, trocando juras de amor, olhando as roupas misturadas e unidas em uma desconcertante pilha perto deles quando ouviram pela primeira vez aquele som...
Era um uivo grotesco, pesado, lento e aterrorizantemente familiar, eles puderam sentir as palavras quase humanas se arrastando pelo vento, lentas e poderosas. Mais que um aviso era uma intimação. Aquele som, tão característico os  envolveu como uma nevoa de medo e pânico.
Passos largos, a respiração quente, aqueles dois jovens estavam de pé, ele tentava em vão protegê-la de uma ameaça sem corpo...  Assustada ela  olhou para cima e gritou.
 Azul e fria,brilhando solitária no céu estava a lua, em sua forma redonda e bela e naquela floresta, naquela noite fria o casal só podia pensar em uma única coisa. Roma era a capital dos filhos de Caron... E havia um solto, desprotegido das paredes de mármore das tantas igrejas espalhadas por ai.
Se antes foram um casal romântico que se escondiam atrás das arvores para roubar beijos inocentes, agora não passavam de uma grande poça de sangue coagulado e pedaços desconexos do que uma vez foi o corpo de ambos. Se foram dois em vida, se tornaram um na morte.
Alessandra levantou e caminhou devagar até a beira do pequeno lago nas águas frias ela lavou as mãos cobertas de sangue, os braços, o cabelo... Deixou que as águas frias tirassem dela todas aquelas memórias horríveis, ela não se lembrava do que havia ocorrido, mas a simples imagem da consequência era suficiente para  transformar um dia que poderia ser um excelente dia, em um pesadelo vivido.
  Durante a lua ela matou dois jovens... Duas pessoas que ela nunca viu morreram por que ela... Por que ela era um monstro.

Aceitar que ela era muita menos que uma humana estava sendo difícil, e imaginar que ela, a tão doce e adorável Alessandra, professora de religião da pequena escola da vila, a dona do enorme jardim de begônias e azaleias. A Alessandra que passava o final de semana trabalhando e projetos para ajudar a pequena comunidade da vila...Estava matando outros quando a Lua deitava cheia no céu, ora aquilo era quase .... Impensável. 
A jovem fora instruída desde muito nova, alem de muitos livros ela lia as escrituras sagradas que lhe era permitido, era inteligente como poucos, e sabia muito bem que os lobisomens ou os homem bestas, eram tão sagrados quanto as sereias e os dragões, talvez houvesse mais dos lobisomens na Itália do que em qualquer outra parte da Terra o que era muito celebrado e adorado pelos moradores, afinal todos aqueles que fossem mordidos, todos aqueles que os olhos mudavam de cor tinha que reunir-se no subsolo das igrejas para a proteção geral da população... E quando não estavam em seu estado crítico, eram seres extremamente cultos e propensos a boas ações. Certo?
Bem... Quase. antes de ser atacada,Alessandra achava que sim, mas agora com cicatrizes crescendo em seu corpo como erva daninhas,  ela começava a ver os filhos de Caron como seres repugnantes.
Limpa e com os restos de um vestido que ela não sabia dizer se eram dela ou da menina que morrera na noite anterior, a jovem começou a andar a esmo, queria chegar na vila apenas na hora do almoço, quando estivesse mais calma... Enquanto andava ela resmungava consigo mesma:

– Os elfos dividem conhecimentos da magia das florestas com os homens, as Sereias ensinavam a graça e o poder das águas, Bakus são guardiões dos sonhos, Sombras nos carregam quando chega a morte, Dragões são os guardiões do passado, , os vampiros . Bem eles cuidam dos bordeis e isso até tem serventia... – Ela chutou uma pedra com uma força sobre humana – E quanto a mim , o que me torna um ser tão sagrado assim? O que faz de mim tão especial que eu mereço ter todas as pessoas pensando que eu seria melhor que os outros... Eu... Não.. Faço absolutamente... Nada! –Gritou ela com raiva. – Eu destruo Vidas inocentes... Eu não sou sagrada... Caron criou monstros...
– Acha mesmo? - uma voz veio das sombras de uma arvore escura.
– Quem está ai? - perguntou ela assustada.
– Alguém que quer ouvir sua opinião minha Jovem.
O homem que saiu de trás da arvore tinha um corpo robusto, uma pele acetinada coberta de tatuagens, símbolos e palavras tão antigas que mesmo ela, que estudou línguas, não sabia o que significavam, os olhos amarelos, forte, olhos de um lobo,  eram  velhos,  antigos, olhos de alguém que viveu tempo de mais. Tinha longos cabelos escuros que desciam até a cintura preso em um rabo de cavalo baixo, o que deixava o Corpo musculoso ainda mais intimidador... Estava sem a camisa, não levou muito tempo para que ela percebesse que o  estranho, como ela era um filho de Caron. Mas aquele homem que tinha traços tão fortes, que tinha uma figura tão imponente, também sorria com uma delicadeza, emanava uma calma e uma paz que quase a fez sorrir.
Mas então Alessandra lembrou-se do que havia passado na noite anterior, e se ele fosse um filho de Caron como ela... Poderia muito bem estar querendo expulsá-la de seu território. A verdade que ninguém gostava de ouvir  é que, mesmo os seres sagrados, seja da espécie que for, podem ser desvirtuados e acabarem por tornarem-se verdadeiros atrocidades.
–  Quem é você? -Perguntou Alessandra com a força da lua ainda correndo em suas veias.
            – Tenho muitos nomes, sou conhecido de diferentes formas. O Alfa Original, O filho da Lua, A Aberração da noite... Pessoalmente me apago ao nome que meus pais me deram quando eu ainda era jovem e humano... – Sorriu o estranho.  – Por Favor , me chame apenas da Caron.
            Se perguntarem a Alessandra  por que ela ajoelhou-se fronte ao homem de longos cabelos negros, ela sempre dirá que foi por que ela sabia da importância dele, mas a verdade é que ele era o primeiro lobo, ele era o criador de sua raça, e acima de tudo... Ele era o alfa supremo.
– Me perdoe meu senhor.
– Perdoar por que? Você tem suas opiniões e isso é algo positivo. – Caron sorriu paternalmente para a jovem. – Por que não me acompanha ate a minha cabana? Está apenas alguns metros daqui, podemos tomar um café da manhã decente, e conversar um pouco. Sei que uma moça que foi transformada a puco tempo deve ter muitas perguntas na cabeça.
             Ele estendeu a mão para ela convidativamente, e antes que pudesse pensar, Alessandra estava caminhando lado a lado com o Primeiro mortal, o mais velho dos Sete irmãos...
            Nada se sabe do que aconteceu naquela cabana, e mesmo que perguntem cem vezes, Alessandra jamais vai revelar o que o lhe foi dito , apenas sabe-se que na manhã seguinte ela foi até  a igreja da vila e iniciou as aulas no seminário de Ocultos, onde em pouco tempo se tornaria a Gran Mestra da Biblioteca.

            Sempre gentil com todos e de uma paciência invejável, a mulher de cabelos cor de ébano, pele escura e delicada e os bondosos olhos amarelos era um verdadeiro mistério. Um mistérios que muitos homens tentaram desvendar e ela nunca lhes deu atenção, até que um dia, chegou na Igreja um homem chamado Lucien, e ai... tudo mudou...

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