Thursday, April 3, 2014

2 de Abril

Os Sete

Inveja

A vida só tem sentido quando se pode morrer.
            Tudo que nasce morre... Certo? Bem... Quase. Os humanos morrem, e só os humanos, isso devera ser um pensamento consolador, Boris pensou enquanto se arrastava pelos campos de corpos vazios da segunda guerra. Havia um cheiro desprezível de carne, pólvora e sangue... Tanto sangue.  O cheiro era mais vivo que as pessoas jogadas para todos os lados. Alguns vivos, outros mortos... A maioria morta. 
Guerras sempre foram as piores partes da longa vida de Boris, tantos corpos ocos como cascas de nozes quebradas depois da ceia de Natal, e tudo para que um país prove que seu argumento é mais forte que o argumento do outro país.  Honestamente aquilo não fazia nenhum sentido e colocava todas as Sombras trabalhando mais do que qualquer outro período histórico, a não ser as grandes epidemias... Mas essa não era exatamente culpa deles.
A sombra disforme movimentava-se ondulantemente pelo  campo de corpos vazios em um silencio mortal, podia ouvir os trabalhos de seus irmãos e irmãs buscando almas e mais almas, uma calma sinfonia que apenas as Sombras  poderiam ouvir, e aquele som , quase divido misturado a preces e ofensas aos grandes Deuses. Boris achava muito curioso, de certa forma eles foram empurrados para a morte, como marmotas que se jogavam de penhasco ao ver uma nuvem no céu.
Humanos são estúpidos.
E como Boris queria ser como eles...  Tão simples em suas complexidades e tão grandes em suas efemeridades. A vida humana eram tão curta e tai cheia de significado., cada ato, cada pensamento cada pequeno ou grande gesto era único e poderoso. Por serem mortais, a vida deles tinha algo que a de Boris faltava e lhe fazia mal... Finalidade.
Só existe finalidade o que tem fim... Então viver eternamente era apenas um trabalho manual e sem fim, como fez aquele rapaz de bigode engraçado nos anos vinte.  Os humanos vivam a vida, As Sombras, os Imortais como um todo, estavam presos a ela, e era m vida completamente sem sentido.
Parando próximo ao corpo que lhe pertencia Boris sorri em sua forma disforme, estava calmo, quase que o esperava, havia feito suas preces e apenas esperava. Aquela foi uma despedida simples, a alma fluiu como a uma pétala de flor que cai no rio e se deixa levar pela correnteza. 
Boris envolveu o corpo do soldado Alemão com suas mãos, pode sentir a crença de que tudo que fizera fora por um bem maior, era jovem, não tinha se quer vinte anos, e tinha um coração... Enorme, brilhante, vermelho vivo, e ainda na morte era o coração que o diferenciava.  Durante o caminho todo, que para alguns era longo, para outros era curto, Boris e o soldado, murmuraram juntos canções da antiga Alemanha.  E por fim, a Sombra depositou a alam frente aos portões de prata, se aquilo era o céu, o inferno ou algo no meio, Boris não sabia dizer, mas era ali que ele tinha que para, não podia chegar nem  um milímetro mais perto.
Ninguém sabe ao certo como um ser humano se torna uma Sombra, homem ou mulher, velho ou criança, qualquer um pode se tornar um carregador de almas. Embora existam poucos deles, em épocas como aquela, onde a guerra andava a passos largos destruído tudo que estava pela frente, e criando problemas ao redor como um grande e muito cruel gigante que caminha  de olhos vendados trazendo um rastro consigo, começaram a aparecer muitas outras Sombras.
Eram chamados assim por não terem formas, em sua maior parte do tempo, ou seja, quando estavam recolhendo almas e as levando para os portões de prata, nada mais eram que fumaças sem cor ou forma que deslizavam  pelo mundo como uma sombra sem corpo.  Quando estavam em seu tempo livre, podiam assumir qualquer forma, animal, mineral ou vegetal, geralmente, eles faziam copias do corpo humano que tiveram.
Boris nem sequer tinha certeza de que ele algum dia fora humano, talvez era isso que o assustava tanto, a ideia de que talvez seu único propósito era carregar as almas para os portões... E se ele fora criado apenas para isso... A simples ideia o deixava muito inquieto.  E sempre que essa inquietação vinha,  ele se apegava as poucas memórias que possuía.  A mãe de cabelos escuros e  olhos cansados,  as bochechas rosadas  que lhe serviam Pirozhki quando estava sentado na sala lendo livros infantis, nada era tão saboroso quanto o Pirozhki de batata de sua mãe...
Era nisso que Boris estava pensando, sentado em um banco qualquer e uma praça, observando jovens andando com a cara enfiada  nos pequenos aparelhos celulares que pareciam uma extensão dos próprio corpos.  O tempo passa e os humanos ficam cada vez mais estranhos, ele sorriu para si vendo uma garota tropeçar nos próprio pés enquanto andava.
– Posso me sentar? –  Perguntou um homem de olhos fundos e um cabelo longo e bagunçado, tinha um ar cansado, uma postura séria, e um rosto jovem, aquele não era um homem qualquer.
– Fique a vontade – Disse Boris empurrando a franja para o lado.
– Como as pessoas andam rápido não? – perguntou o homem sem se quer olhar para Boris.
– Estão com presa... Precisam ganhar tempo... Ganhar tempo para viver a vida que estão deixando para trás enquanto tentam ganhar tempo.
– Eles não eram assim... Antes. – respondeu solenemente o homem de cabelos muito bagunçados.
– Eles sempre foram assim... Perdendo de vista aquilo que estav em frente aos olhos deles. – Boris disse amargurado
– A visão de um Sombra sobre os humanos é sempre tão forte. – disse o homem. Com um sorriso torto, cheio de conhecimento.
Boris arqueou a sobrancelha  e virou-se, ignorando o rapaz que tentava dar atenção a uma moça, mas estava mais preocupado com a microtela em sua mão. Com uma observação maior,um cuidado há mais quando ele olhou percebeu que aquele homem não era exatamente humano... A pele era delicada de mais, os olhos muito fundos, havia uma sede que pulsava em seus lábios e aquele desejo evidente... Bem, evidente para Boris que podia ver além dos simples olhos humanos.
– Um vampiro na luz do dia...  Algo um pouco inovador devo admitir.
– Evitamos o sol para não parecermos tão... – Disse o homem com um sorriso amistoso, que fora retribuído por Boris
– Frágeis?
– Exato. Chamo-Me Lucien.
– Boris, uma Sombra.
– Uma sombra muito difícil de encontrar.  – Lucien piscou com uma leve gargalhada
– Nossa natureza é um pouco escorregadia. – Boris sorriu  – Mas agora que me encontrou... O que quer?
Lucien remexeu-se no banco de pedra, lambeu os lábios desconfortavelmente, o vampiro sabia que comentar sobre aquele assunto em particular era difícil, e que muitos dos Imortais se quer acreditavam naquilo, mas ele precisava tentar, as outras Sombras com quem teve contato  nem se quer o ouviram quando ele disse aquelas temidas duas palavras.
– Queria falar com você sobe uma lenda...
– Que lenda?
– A Primeira Lenda... O que sabe sobre ela?
– As Sombras sobem o que a Primeira Lenda diz, e acima de tudo... Sabemos que é uma lenda.
– E se eu... Dissesse  o contrário?
– Eu diria que sua inocência me comove.
– E se eu tivesse provas?

– Ai... Eu ficaria interessado. 

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