Friday, April 4, 2014

3 de Abril

Os Sete

A Morte do Dragão

O sol poente visto da catedral da Sagrada Família em Barcelona era algo fora do comum, se uma imagem definisse extraordinário, seria aquele por do sol. Uma paz, uma curiosa calma emanava das paredes e fazia com que Caron se sentisse em casa... Mas era bem verdade que ele sempre se sentia em casa dentro de uma igreja.
 Uma vez que a estrela amarela se pós, Caron virou as costas para a grande janela da igreja e caminhou lentamente até seu quarto, um pequeno aposento localizado na mais alta das torres da catedral. Caron tinha um quarto em toda e qualquer igreja, e nunca ficava mais que uma semana em cada uma, e sempre, sempre sua presença era mantida em grande sigilo.
O quarto era escuro embora houvesse uma enorme janela na parede leste do Quarto, janela que talvez fosse do tamanho da própria parede, enquanto subia as inúmeras escadas o homem ansiava por deitar-se no chão sob a escuridão do céu e lá ficaria escutando alguma musica nova ou lendo algum novo livro. Ao abrir a porta, porém ele soube que seus planos seriam frustrados e ele teria que reavaliar sua noite.
Só não sabia que as coisas mudariam tanto.
Sentada na simples cama de Caron estava uma bela mulher de feições japonesas, um rosto anguloso emoldurado por longos cabelos negros que cascateavam até sua cintura.  um sorriso delicado adornado por um batom vermelho, usava um vestido que muito parecia um kimono japonês, uma seda delicada preta decorada com bordados de flores de lótus de várias tonalidades na base do vestido, era uma mulher linda, e o teria deixado extremamente confuso, afinal como aquela mulher chegou até lá... Mas então Caron percebeu os olhos delas, olhos completamente negros com um brilho delicado e quase mortal.
Olá Umbra. Disse Caron com um sorriso preocupado, havia séculos que ele não via a irmã e a aparição dela em seu quarto era, no mínimo preocupante.
Como vai meu querido irmão? Perguntou ela vejo que fez novas tatuagens, gostei.
Caron sorriu  docemente e sentou-se a frente dela em uma cadeira de madeira bem simples. Ele estava sério, estranhamente sério, não por que ele não estava feliz em vê-la, mas por que sabia que encontra-la em seu quarto era uma quebra de regras tão grande que Caron temia que a deusa da Escuridão aparecesse ali, frente a eles.
O que aconteceu?  perguntou ele secamente
Tão formal meu irmão, nem se quer parece que você não me vê há quase três séculos. . Ela riu levemente, e sua risada muito se assemelhava ao soar de um minúsculo sino. Mas infelizmente não vim aqui fazer uma visita cordial.
Até por que, não podemos fazer visitas cordiais uns aos outros... Certo?
Exatamente, por isso eu vim, afinal você sendo o mais velho de nós, achei que deveria ser o primeiro, a saber... Freik desapareceu.
Como é?
Sumiu, não pode ser encontrado, eu peço as minhas crianças que estejam sempre  de olho em vocês todos, não gosto de não ter noticias, me deixa nervosa sabe? Bem o fato é que Freik desapareceu, nenhuma das minhas Sombras consegue encontrá-lo, e... Tem mais.
E não acho que o mais seja algo positivo.
Longe disso... Auria... Ela foi... Bem, morta acho que não seria o termo, mas o mais próximo disso que podemos chegar.
Aquilo sim deixou Caron assustado, não por que ele achava agradável a ideia de viver para sempre, mas a ideia de um imortal começasse a caçar outro era crítica, perigosa demais, sabia-se bem que os Vampiros de Bastet não eram exatamente amigos dos Homem-Besta como ele, e que nenhum ser gostava dos filhos e filhas de Umbra, os carregadores de almas...
Auria era a esposa de Freik, o primeiro dragão depois dele mesmo, ela era bela de longos cabelos cor de vinho e olhos tão escuros que a própria noite parecia brilhar naqueles íris negras,  foi a única que conseguiu domar o coração selvagem do primeiro Dragão e o fez tão feliz quanto possível, costumava a escrever cartas para os irmãos de Freik, assim ele poderia ter um certo contato, ela havia se tornado da família... Não era justo que ela fosse o estopim de algo devastador, logo ela que era feita de bondade e luz.
Explique-se minha irmã, isso não é algo que seja tratado levianamente por nós.
Umbra levantou da cama e caminhou até a janela observando a escuridão da noite banhar o quarto de decoração tão simples. Ela estava controlada por fora, sua face mantinha-se serena e sua voz era calma, sua mente, no entanto... Ela sentia os pensamentos correrem e saltarem e, sua cabeça e não importava o quanto ela tentasse pensar e, possibilidades positivas para aquela situação... Não havia nada bom naquilo...
Ela esperava por algo parecido acontecer um momento ou outro, quando os humanos consagraram os Imortais, dizendo que ele eram  como “quase deuses”, profetas, ligações diretas com os Deuses, mais dia menos dia aquilo iria subir a cabeça de alguém. Infelizmente o dia havia chegado cedo de mais...
Ê o clã dos Kovaluks, Vampiros Siberianos venerados como deuses. Explicou Umbra negando-se a olhar para o próprio irmão. Chegou ao ouvido deles que uma sereia morreu de velhice,
A primeira Lenda, nós sabíamos que algum dia alguém ia tentar.
Eu sei disso Caron, mas o que eu quero dizer é que os Kovaluks não ficaram nem um pouco felizes com a noticia... Se os imortais morrerem...
Eles perdem o status de deuses... Caron disse em um pânico silencioso vibrando em suas voz quando ele finalmente compreendeu a linha de raciocínio de sua irmã
Exato, e o que você faria para impedir que isso acontecesse?
A resposta veio automaticamente, e as palavras de Caron caíram no chão quebrando como vidro.
Tornaria impossível juntar um de cada espécie...
Dragões sempre foram tão escassos... Um a menos... Um a mais...
Silencio.
            As palavras pareciam falhar para que se entendesse aquela situação, aquilo era o pior pesadelo dos sete irmãos... Uma guerra entre humanos por si só já é algo completamente deplorável e arrasadora, muda destinos e desperdiçar vidas, mas uma guerra entre os imortais... Aquilo seria uma aniquilação em massa!
Havia cidades inteiras  com a população de  Lobisomens, ou Vampiros, nem mesmo os Deuses poderiam contar quantos Elfos viviam nas florestas, afinal eram os únicos que podiam procriar entre eles, o oceano era grande de mais para se contar as Sereias, e sempre é bom lembrar que elas eram as mestras das magias... Sem mencionar os Bakus que se misturavam tão bem entre os humanos, sendo quase impossível identifica-los... E as sombras...  Se os outros soubessem que Dragões estavam sendo mortos... Aquilo seria uma catástrofe como nunca antes encarada.
Ainda que fosse possível matar um deles, o que era algo pouquíssimo provável, pensou Caron, que teve a própria cabeça arrancada mais de uma vez e sempre sobreviveu, não era com as mortes dos não humanos que Caron se preocupava... Era com os humanos...
Quantos deles seriam transformados em exércitos sem piedade alguma, encurralados por todos os lados...  E a necessidade de manter-se como ser dominante ia subir a cabeça de TODOS os Imortais e logo a raça humana seria extinta...  A criação dos Deuses...
Como eles estão fazendo isso? Caron questionou tentando manter-se calmo.
Cortam-lhe a cabeça, e a separam do corpo, tem que ser muito rápido... Antes que a cura comece, então... Eles enterram o corpo, e guardam a cabeça em uma caixa...
Isso é uma blasfêmia! Os olhos de Caron ganharam uma tonalidade dourada, quase laranja, uma cor aterrorizante, até mesmo para Umbra, afinal ele era amaldiçoado pela Ira.   Eles sabem?
Por que você acha que eu estou aqui?   Ela sorriu para aquele trunfo em sua manga.
E o que querem que façamos?
Primeiro... Temos que achar Freik... e vamos precisar de ajuda.
Você quer dizer... Havia um sorriso  largo nos lábios de Caron, quase como se ele tivesse esquecido a nuvem negra que pairava sobre eles.  Todos  nós?
A magia de Chiarinna só funciona quando todos estamos juntos...  Foi A Escuridão que nos deu permissão...
Caron levantou-se e finalmente abraçou a irmã. Quanto tempo se havia passado desde que ele pode estar com ela de novo... De tudo aquilo que ele se arrependia naquela enorme vida que tinha, tornar-se imortal foi uma delas... Não por que fora obrigado a ver todos aquele que conheceu morrerem... Mas por ter sido afastado daqueles que amava. A única razão de ter quebrado a grande regra... Sua família.  E quando ele sentiu os braços delicados de Umbra ao redor dele, em seu coração ele se questionou... Já não fora sofrimento de mais, viver uma vida sem uma família, sem um propósito?
Vamos concertar isso...   ele disse beijando carinhosamente o rosto da irmã.

Talvez precisemos de ajuda. 

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