Tuesday, April 8, 2014

4 e 5 de Abril

Os Sete

Avareza
A Mansão Kovaluk é um monumento no meio da neve.  Uma gota de sangue no meio da imensidão branca, e lá é onde fica escondido o mais precioso de todos os Tesouros do Primeiro Dragão. 
No  chão  gelado, tão gelado que  parecia feito de pedras de gelo não concreto, as correntes  fortes, de metal antigo cortavam os pulsos e tornozelos dela e a mantinham no lugar, sem poder sair,mas pior que a sensação dos cortes profundos, era o  cheiro de sangue velho. Ela não era a primeira a ficar presa lá. Não havia janelas ou portas ao alcance dela, havia um pouco de luz... Não era natural, uma luz branca e sem vida, refletia-se nas paredes escuras e morria antes de chegar a ela, deixando  que as coisas ao seu redor caíssem na penumbra e no frio.
Embora soubesse que ela deveria se comportar, mantendo-se calada e sem mover-se muito para conservar suas forças e receber alguma alimentação... Ela lutava. Seus braços estavam ensopados do próprio sangue, ao redor de seus pés, pequenas poças de sangue coagulado se acumulavam, e sempre que um deles entrava no pequeno espaço que ela estava, um deles se queimava com o fogo que escorria da boca dela como veneno.  E depois de três semanas, nenhum deles ousou entrara lá... O que significou que ela estava sem comida, sem luz, fraca...
Pela primeira vez em sua longa vida, Auria desejou morrer.
Basil Kovaluk aparentava ter seus quarenta anos, cabelos com alguns pontos cinza davam um charme adulto ao rosto forte e quadrado, era um home de aparência atlética, olhos escuros e profundos e um gosto simples, a única coisa que separava Basil da divina perfeição, pensava ele, era sua eterna sede por poder.
Ele não podia  esconder a preocupação que lhe franzia a testa desde que prenderam a jovem de cabelos dourados no seus aposentos menos confortáveis. A mansão havia sido construída durante uma época em calabouços subterrâneos eram não só admissíveis como também bastante aconselháveis, e saber que nas entranhas de sua tão famosa mansão havia um dragão se deteriorando era preocupante por si só, mas saber que aquele dragão de asas negras eram ninguém menos que a desposada de Freik... Aquilo tirava o sono tranquilo do vampiro.
Auria era forte, mas era uma criatura do sol, coloca-la em um calabouço subterrâneo na Sibéria havia drenado suas forças o suficiente para que ela ficasse domável. Ela havia sido capturada por um grupo dos cientistas que Basil mais confiava, todos eles eram vampiros, é claro.  E estavam esperando que o corpo mostrasse sinais de fraqueza para que se realizasse o experimento.
A escuridão tomava conta da ala pessoal de Basil enquanto nos andares mais baixos da mansão, os outros tantos vampiros comiam, dançavam e faziam sabe-se lá o que, o mestre estava muito quieto, pensativo demais quando bateram a porta de seu quarto.
– Entre – disse Basil secamente
Um jovem  que beirava os vinte anos chegou acanhado, tinha uma voz seca e rouca, muito mais velha do seu rosto aparentava.
– Creio que estamos prontos, senhor... Só existe um pequeno empecilho.
– Que. Empecilho? – rosnou Basil
– Nenhum de seus homens quer vaze-lo. Depois que Ajax ficou na enfermaria por cinco dias devido as queimaduras... Ninguém têm, se quer,  coragem de chegar perto da porta.
Basil suspirou profundamente, por que ele tinha que ser rodeado de tantos incompetentes?  Saiu de perto de sua mesa e caminhou lentamente até a porta, não havia necessidade de palavras, tanto ele quanto o jovem cientista estavam certos do que ia acontecer.
– Está tudo pronto?
– S-sim senhor. – Balbuciou o jovem que fez questão de estar a alguns passos atrás de Basil.
Basil arregaçou as mangas de sua camisa enquanto descia as escadas, havia uma espada de forja japonesa encostada na porta do calabouço, havia uma aura silenciosa sob aquela espada, o plano de Basil, sua sede de poder... Era tamanha a importância daquela espada que qualquer um que passasse por ela, poderia jurar que havia uma quieta vibração sob ela.
Basil Kovaluk,  o Vampiro da Neve... O grande sequestrador de dragões... Que belo titulo. Disse Auria observando as  pequenas baforadas de fumaça preta saírem de seu nariz.
Olá Auria, finalmente chegou o dia. Levou quase um mês, e devo dizer, você é muito mais forte do que eu pensei.
Dragões não são criaturas que se curvam para nada, nem para dor, nem para a fraqueza.
Ora minha querida, todos vocês vão se curvar, no fim só existiremos nós.
Sabe... Eu sempre soube que um dia isso ia acontecer, sempre soube que um dia... Essa besteira toda de endeusificar-nos  ia subir a cabeça de alguém...  E era obvio que seria um Vampiro. ela cuspiu no chão, os loiros cabelos sujos caindo na frente do rosto delicado deixando o sorriso, normalmente tão belo, parecendo o reflexo de sua loucura. Tão vaidosos... Tão presos em si mesmo... Tão ridiculamente vazios.  Diga-me, finalmente você achou uma maneira de me matar? Por que...Isso aqui está ficando muito entediante.
Sem mais palavras ele levantou a espada, olhando dentro dos olhos delicados de Auria com um brilho maníaco em suas íris tão escuras.
Cai o Oitavo membro e com ele a era dos Sete. Luz e Escuridão clamarão o seu devido lugar.  O pecado foi previsto e sua rendição será exemplar.
Essas foram as ultimas palavras de Auria, antes de ter sua cabeça arrancada e cuidadosamente guardada em uma bela caixa de mármore, seu corpo enterrado muitos países da Mansão Kovaluk.
Assim que a cabeça de Auria tocou o chão, a milhares de quilômetros dali... Uma jovem dava a luz a sua filha, escondida em uma caverna iluminada por lamparinas a óleo, ecoando nas paredes os gritos de dor e as orações de esperança.
O nascimento de um dragão é um processo longo e doloroso, a mãe é escolhida a dedo pelo dragão pai, que deposita sua magia no feto em formação. Feto que sofre transformações insonháveis até tornar-se um ovo, que se chocará depois de algumas semanas. Se tudo der certo.
Ana Marie foi escolhida por um dragão fêmea chamado Karm, ela era tão antiga quanto o convento que Ana Marie se escondia na noite em que sua filha nasceu. A  jovem de apenas dezesseis anos havia sido violentada por seu meio irmão, e esperava um filho indesejável. Desgraçada e expulsa de casa, Ana Marie tentou abortar a criança com as próprias mãos. Sem um sucesso aparente, sangrando aos montes perto do Convento da Montanha Velha, Ana Marie foi resgatada por um frade e ficou escondida lá até que fora solicitada para ver Karm.
A dragão disse a jovem que sua criança era forte, e que estava se agarrando a vida com tudo que tinha, e por aquela força tão incrível, por demonstrar um amor a vida tão grande com tão pouco de vida, Karm havia decidido que aquela seria sua criança, se Ana Marie concordasse com aquilo.
Um fato curioso sobe a reprodução dos dragões é que não existe um dragão Mãe, mesmo as fêmeas são Pais, por que qualquer dragão, desde Freik, nasceu de uma mulher humana que aceitara a magia dos Dragões em seu ventre.
Ana Marie sabia que os dragões eram poucos, e que ser escolhida para gerar um dragão era um honra indescritível, mas ainda sim levou uma semana para que ela aceitasse a oferta de Karm.
A gestação foi de indesejada para dolorosa, Ana Marie sentia que suas entranhas estavam sem torcidas e repuxadas, e todo da era uma enorme tortura.  Seu corpo necessitava de temperaturas altíssimas para que ela se sentisse confortável, As noites eram tormentos ainda maiores, dragões eram seres do sol e da luz e quando isso faltava...
Nove meses de tortura levaram a noite do nascimento da criança dragão, como era de se esperar Karm era a única que podia estar presente, ainda que muitos Frades e inúmeras Monjas estivessem na entrada da caverna. Aquela seria a primeira criança em quase um século, e era muito esperada pelos seguidores de Freik.  
Depois de longas horas de trabalho de parto, o ovo  entregue as mãos de Ana Marie, ainda estava quente,a s escamas eram grossa e delicadas ao mesmo tempo, a cor mais viva do que qualquer pintura ou televisão, e tão belo... Tão dela.
Devo leva-la para minha caverna queria, agora começa a segunda parte do nascimento dela.
D-dela? Ana Marie perguntou a Karm com um sorriso fraco Como sabe que é uma menina?
Ela me disse. Karm piscou um olho e  mudando de forma, da humana bela de cabelos escuros, para o grande dragão de escamas azuis, que alçou voo para sua caverna.
Cornélia foi o nome que Ana Marie escolheu para a filha, a menina teve uma vida tão normal quanto possível, criada pela mãe humana, que lhe ensinou a ser justa, bondosa e honesta, e pelo pai dragão, que lhe ensinou a ser forte, corajosa e tomar as rédeas da própria vida.
Ana Marie morreu quando Cornélia tinha 54 anos, e não aparentava ter mais de 20, e foi nesse mesmo ano que ela começou sua viajem pelo mundo. Ela queria explorar tudo aquilo que havia lido em livros e tentar esquecer a morte de sua mãe no processo... Ainda que não fosse sua escolha, Cornélia sabia que aquela era sina e que a eternidade a seguiria como uma maldita sombra e ela deixaria para trás todos aqueles que ela amava.
A vida dela estava escrita em tortas linhas de sofrimento, ou ela achava que assim fosse.
Ela conheceu Boris depois de alguns anos em suas andanças pelo mundo, ele era uma Sombra, mas não uma sombra qualquer, ele buscava algo, algo que o estava fazendo rodar o mundo.  Boris buscava um dragão.
O encontro deles foi ao acaso, mas Cornélia acreditava que o Deus da Luz havia iluminado o caminho dela até ele.  
Boris lhe contou tudo o que sabia sobre A Primeira Lenda, e que conhecia um Vampiro, louco o suficiente para por aquela lenda a prova, mas que os dragões que havia encontrado eram vaidosos de mais para misturarem-se com outros seres... E a verdade é que havia tão pouco deles.   Os dois passaram dias juntos, conversando e debatendo sobre a ideia de estar frente a frente com a morte, e não a morte de outros, mas a deles próprios.
Sabe... O meu livro preferido tem uma frase que eu nunca entendi, mas acho que agora eu tenho uma possibilidade de compreende-la Disse Cornélia a Boris em uma das tantas caminhadas
E qual seria a frase? Indagou ele
“Morrer seria uma grande aventura” J.M Barie.
Excelente livro.
Você leu?
Assisti a primeira peça.
Você é velho.
E você é inconveniente.  Então isso é um sim? Você  vai querer se mudar e tentar viver uma vida finita?
Vou. 

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